Ler é Bom, Vai | Valeu a pena esperar por Tartarugas até lá Embaixo

Desde o anúncio de seu próximo livro, John Green conseguiu transformá-lo no livro mais aguardado do ano antes mesmo de ter um título em português. Após o enorme sucesso de suas obras anteriores, tanto em livrarias quanto em salas de cinema, o autor acumulou uma enorme base de fãs apaixonados e ansiosos para qualquer tipo de pedaço de papel que ele escrevesse. Finalmente o grande dia chegou, e Tartarugas até lá embaixo começou a estampar livrarias com sua marcante capa laranja e preta. Pequeno apenas no tamanho, o livro apresenta um conteúdo profundo e delicado – típico de John Green – abordado de maneira didática na maior parte dos casos. Não foi preciso muito mais do que algumas horas para terminar o exemplar, e é por tudo isso que ele hoje está no Ler é Bom, Vai! 

“Aza Holmes tem 16 anos e, ao lado da melhor amiga, decide investigar o desaparecimento de um bilionário – quem encontrá-lo receberá uma polpuda recompensa em dinheiro. Enquanto tenta lidar com o próprio transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), tenta ser uma boa filha, uma boa amiga e, agora, até mesmo uma boa detetive. As terríveis espirais de pensamento continuam a assustá-la, afunilando-se mais e mais, infinitamente.”

Green já havia declarado que trabalhou em seu novo livro por anos, sendo essa a primeira tentativa de escrever diretamente sobre o tipo de doença mental que o afeta desde a infância. Assim como sua protagonista, ele teve lidar com todos os efeitos  que a ansiedade pode provocar a uma pessoa e o detalhamento dos pensamentos de Aza são prova física disso. Não há como saber de todas aquelas etapas, crises e reflexões sem ter passado por tudo aquilo e isso é o que torna Tartarugas até lá embaixo tão especial. Pode ser que muitos leitores não apreciem tal minuciosidade, então se este é seu primeiro contato com John Green, recomendo que tente uma de suas outras obras primeiro. O novo lançamento talvez tenha sido meu livro favorito até então, principalmente por quão verdadeiro ele é.

Aza e Daisy vivem aquela típica amizade inseparável de colégio, onde diversos fatores – meninos, faculdade, família – tentam acabar com esse relacionamento tão bonito. Responsável por boa parte das situações loucas e inusitadas, parte de Daisy a ideia de investigar o sumiço do bilionário e receber os US$ 100 mil dólares de recompensa. Como toda aventura adolescente, “príncipes” não tão encantados surgem no meio do caminho, assim como questões familiares e pessoais um tanto complicadas. O que é tão maravilhoso nesse livro é o ponto de vista de Aza – ou de John Green – em relação a todas as situações. Estamos acostumados a ver pessoas dizendo ter TOC por serem extremamente organizadas e perfeccionistas, mas o que acontece na cabeça da menina vai muito além disso. John nos transporta para uma viagem na mente de Aza, detalhando cada reação, pensamento e observação que ela tem diante as dificuldades. Percebemos ainda a luta da garota contra sua consciência, tentando ser “normal” a todo custo. É então que paramos pra pensar: o que é ser normal?

Para aliviar a tensão dos pensamentos de Aza, Green cria uma personagem divertida e carismática como sua melhor amiga. Enquanto temos a sensação de o autor está representado na protagonista, Daisy somos nós, tentando entender de qualquer forma o que fazer em relação à amiga. É através das reações de Daisy que nos damos conta do quão despreparados estamos para enfrentar esse tipo de situação. Crescemos aprendendo a segregar pessoas doentes, colocando-as em escolas especiais e não convivendo com elas em nosso dia a dia. Mesmo sendo uma história fictícia, John nos mostra que não apenas é possível, mas também um relacionamento puro e verdadeiro como qualquer outro. Sem falar que Daisy é famosa por escrever fanfics de Star Wars, nos dando diversas referências no decorrer do livro. Muitos podem pensar que ela é egoísta em algumas situações, mas quando enfim entendemos suas personagem, percebemos que ela é a melhor amiga que todos queríamos ter.

“Mas eu estava começando a entender que a vida é uma história que contam sobre nós, não uma história que escolhemos contar. A gente finge ser o autor, claro. Não tem outro jeito. Quando as entidades superiores fazem tocar aquele sinal monótono exatamente às 12:37, você pensa: ‘Agora eu decido ir almoçar’, mas na verdade é o sinal que decide. A gente acha que é o pintor, mas é a tela.”

Divulgação/Intrínseca

Não podemos deixar de mencionar Davis, o filho do empresário desaparecido. Surgindo no momento mais oportuno possível, ele é essencial para compreendermos o que se passa na cabeça de Aza. O menino é diferente da maioria dos garotos de sua idade. Se interessa por escrita, leituras clássicas e autores consagrados na literatura como Shakespeare, Demócrito e Brontë, além de usar a internet para desaguar suas ideias. Você pode estar se perguntando de onde John Green tirou as tartarugas do título, e acredite, ele não as inventou. Para evitar possíveis spoilers vou deixar Aza te contar a razão, mas quando ela fizer saiba que a lenda é real (o Google não mente). Assim como acontece na teoria original dos répteis, vários elementos são adicionados a narrativa enquanto folheamos as páginas, mas é apenas o jeito de John contar uma história. Mesmo curto, Tartarugas até Lá embaixo se tornou meu livro favorito por diversos motivos, os quais espero que você entenda ao lê-lo.

” – Não existe um ‘eu’ para odiar. É como se, quando eu olhasse para mim mesma, não visse nada infinito…só um monte de pensamentos, atos e contextos. E muitos na verdade nem parecem meus. Muitos pensamentos eu não quero pensar, muitas coisas eu não quero fazer, é mais ou menos isso. Quando procuro o que eu sou, nunca encontro. Como as matrioskas, aqueles bonecas russas, sabe? (…) Só que dentro de mim…acho que não existe a última. Só bonecas ocas, uma menor que a outra.” 

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